Projeto de Ciência Cidadã – A Poluição Avaliada em Cascas de Plátano

A Ciência Cidadã é um conceito que pretende promover sinergias entre cientistas e cidadãos de modo a alargar o âmbito das investigações e a aumentar a literacia científica. Os projetos de ciência cidadã promovem o envolvimento dos cidadãos que colaboram com o seu conhecimento, com os seus recursos e com o seu esforço intelectual.

No âmbito do seu campo de investigação, Mário Moreira e Graça Silveira, ambos do Departamento de Física do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) e investigadores no Instituto Dom Luiz (IDL) e Ermelinda Ribeiro, bióloga delinearam um projeto de investigação científica para utilizar a acumulação passiva de micropartículas metálicas pelas cascas de árvores como um método de avaliação da poluição do ar. As micropartículas metálicas que se encontram no ar das cidades têm origem maioritariamente no processo de combustão dos combustíveis fósseis e nos materiais abrasivos incorporados nos travões dos veículos automóveis. A sua quantificação poderá permitir a identificação das zonas mais poluídas e assim permitir delinear estratégias para minorar os efeitos nefastos desta contaminação. Por exemplo restringir a circulação em alguns locais, plantar árvores para funcionarem como barreiras e acumuladores das micropartículas metálicas em corredores mais afetados ou ainda conceber outros modos de intervenção.

A quantidade de micropartículas metálicas pode ser avaliada usando métodos de análise magnética dos materiais, em particular da suscetibilidade magnética em biocoletores como as cascas de árvores, sendo o plátano uma opção com muitos aspetos positivos.

Os plátanos são árvores muito utilizadas nas zonas urbanas, quer em parques quer ladeando as ruas e estradas. Pelo facto da casca da árvore ser capaz de absorver e reter partículas metálicas muito finas, a vasta distribuição desta árvore torna-a uma boa candidata a ser utilizada para a avaliação desta contaminação nas zonas urbanas. Acresce ainda que o plátano elimina anualmente a camada mais externa da sua casca o que permite uma avaliação anualmente renovável e uma utilização sem necessidade de danificar a árvore. Assim, o plátano aparece como uma excelente escolha para avaliar a contaminação das partículas metálicas, através do estudo da sua casca.

Uma investigação da poluição numa cidade, que tenha um verdadeiro impacto em termos de informação coligida, em particular da poluição por micropartículas metálicas associadas à ação do tráfego automóvel, requer a recolha de dados em muitos locais, pois a variação pode ser bastante significativa mesmo em locais muito próximos. Sabe-se por exemplo que na mesma rua as leituras da suscetibilidade magnética podem variar em poucos metros dependendo de fatores como a proximidade de um semáforo, a inclinação de uma rua, ou o número de carros que param num dado local, por exemplo à porta de uma escola.

Com o objetivo de fazer uma cartografia o mais pormenorizada possível da poluição por micropartículas metálicas na cidade de Lisboa, os promotores deste projeto pensaram na possibilidade de o integrar numa atividade de Ciência Cidadã com a participação da comunidade escolar que permitiria aumentar muito as zonas a serem amostradas além de permitir a interação importante entre os alunos e o mundo da investigação científica. Foi neste contexto de Ciência Cidadã que eu entrei como cidadã bióloga e ex-professora. Tive a grata tarefa de apresentar o projeto a colegas professores de várias escolas, assim como de o ter apresentado a duas turmas de alunos na Escola Secundária Rainha Dona Leonor, tendo a excelente adesão sido muito gratificante.

Neste momento participam 12 escolas que integram alunos do 1º ciclo ao secundário. Já muitos alunos realizaram trabalhos de recolha de informação sobre os plátanos, sobre a poluição urbana ou sobre o magnetismo, já divulgaram o projeto aos seus familiares e aos outros elementos da comunidade escolar, alguns já recolheram as cascas dos plátanos e agora vão entrar na fase de laboratório em que vão poder ter acesso ao laboratório e, eles próprios, determinar a suscetibilidade magnética das suas amostras. A primeira carta com a identificação da contaminação por micropartículas metálicas na cidade de Lisboa determinada por suscetibilidade magnética das cascas de plátanos está a caminho.

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