Salmões, ursos e árvores

Sabemos que na Terra todos os seres vivos estão interligados, mas… Como podem estar diretamente associados salmões, ursos e árvores?

A história que vou contar passa-se na costa oeste dos Estados Unidos da América e tem como personagens três seres vivos que têm “estilos” de vida bastante diferentes: os salmões que são animais aquáticos, os ursos que são animais terrestres e ainda as árvores, plantas de porte elevado, elementos duma floresta.

Salmão a subir um rio.

Os salmões são peixes extraordinários que ao longo do seu ciclo de vida se deslocam dos rios, onde eclodiram a partir de ovos, para o oceano onde passam grande parte da sua vida adulta e que regressam ao rio onde ocorre a sua reprodução. Os salmões do Pacífico, Onchorhyncus sp. retornam ao rio em que nasceram. O regresso à agua doce é também a sua derradeira viagem, pois após a reprodução morrem. A reprodução só tem êxito em águas frias, transparentes, com sombra e com leito de cascalho. Para que os rios mantenham as condições propícias à reprodução do salmão tem que haver floresta nas margens e encostas do rio. As árvores da floresta fazem sombra no rio, o que não permite o aquecimento da água. É também a floresta que retém os sedimentos que iriam cobrir o cascalho caso esta não existisse.

Urso à pesca num rio.

Os ursos são mamíferos plantígrados, pois assentam no chão as “plantas” das patas, que têm uma pelagem espessa, cauda curta, bom olfato, garras não retráteis e que são omnívoros. Apesar de comerem de tudo, geralmente preferem alimentar-se de outros animais, de entre os quais podemos destacar os peixes. Durante os cerca de 45 dias que os salmões se mantêm no rio para a reprodução os ursos, assim como as águias por exemplo, têm à sua disposição um manancial de alimento. Os investigadores estimam que cerca de 70% das proteínas que estes ursos ingerem anualmente têm origem nos salmões.

As árvores são seres vivos produtores uma vez que, ao contrário dos animais, não necessitam de se alimentar de outros seres vivos para viverem. As árvores vão buscar ao ambiente apenas moléculas inorgânicas e com elas constroem as suas próprias moléculas orgânicas. São elementos químicos essenciais para o crescimento das árvores o carbono, o nitrogénio, o fósforo, entre outros, que são obtidos pelas árvores quer a partir do solo quer do ar.

Considerando cada um dos personagens em separado começamos a desvendar o mistério das relações, mas há ainda muito por revelar.

Quando um urso pesca um salmão, não o come imediatamente, leva-o para a floresta onde pode deliciar-se sossegadamente. O urso come apenas cerca de metade de cada salmão deixando na floresta o resto que é depois comido por águias, martas, corvos e gaivotas. O que estes animais não devoram fica então à mercê de insetos, escaravelhos e outros seres vivos. Passada uma semana já não há tecidos moles, só sobram os ossos. Durante este tempo alguns fluidos do salmão escorrem para o solo, impregnando-o com moléculas do salmão. As fezes de todos os animais que se alimentaram do salmão vão também enriquecer o solo com moléculas do salmão.

As moléculas do salmão que se encontram no solo são posteriormente retiradas do solo pelas raízes das árvores e desta maneira passam a fazer parte das moléculas da própria árvore. É interessante notar que em anos em que os salmões são abundantes as árvores crescem até cerca de três vezes mais do que quando os salmões escasseiam.

Nesta história de três personagens principais as interrelações são complexas e os seres afetam-se mutuamente assim como interagem com o meio físico. Os salmões precisam de florestas e rios saudáveis para se reproduzirem com sucesso e os ursos e as árvores precisam dos salmões. Os rios para serem saudáveis precisam das florestas ripícolas que lhes fazem sombra e retêm os sedimentos. Então podemos concluir que nesta rede intrincada de interligações os salmões precisam das florestas, mas as florestas precisam dos salmões. Ambientes que pareciam ser independentes estão assim intimamente ligados: os salmões são o alimento dos ursos e estes disponibilizam os nutrientes dos salmões às árvores da floresta e, por sua vez, a floresta saudável mantém os rios também saudáveis.


Fontes:

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